+351 22 996 25 24

(chamada para rede fixa nacional)

Voltar a ouvir bem. Voltar a sentir-se firme.

Muitas vezes, deparamo-nos com uma das queixas mais comuns:

“Eu ouço bem, só não consigo perceber as pessoas.”

Perante esta dificuldade, a primeira abordagem deverá ser sempre verificar a audição.

Ouvir é apenas o primeiro passo

O som é captado pelo pavilhão auricular e conduzido pelo canal auditivo até à membrana timpânica, fazendo-a vibrar.

Essa vibração é transmitida aos três ossículos do ouvido médio, que a amplificam e a conduzem até à cóclea. No interior da cóclea, o movimento das células transforma as vibrações em impulsos elétricos, que são enviados para o cérebro.

Este processo é realizado pelo Sistema Auditivo Periférico.

E o que acontece quando a audição está normal?

É nesta fase que entra o Processamento Auditivo Central (PAC).

O PAC corresponde ao conjunto de habilidades que permite ao cérebro e às restantes estruturas da via auditiva interpretar, organizar e discriminar os sons que captamos.

Por outras palavras, ouvir um som não significa necessariamente compreendê-lo corretamente.

Ouvir não significa compreender

Quando uma avaliação demonstra que a audição está dentro dos parâmetros de normalidade, é importante analisar as principais dificuldades apresentadas pela pessoa.

Entre as queixas mais frequentes encontram-se:

  • Dificuldade em compreender a fala em ambientes ruidosos;
  • Necessidade frequente de pedir para repetir;
  • Troca de palavras com sons semelhantes;
  • Dificuldade em localizar a origem dos sons;
  • Sensação de cansaço após situações que exigem muita atenção auditiva;
  • Tendência para o isolamento social.

Estas dificuldades não afetam apenas uma faixa etária específica. Tanto crianças como adultos podem apresentar alterações relacionadas com o processamento auditivo.

Nos adultos, estas queixas podem tornar-se mais comuns com o envelhecimento, estando frequentemente associadas a uma maior sensação de esforço, cansaço e dificuldade em localizar os sons.

Nas crianças, os sinais podem ser confusos

Em idade escolar, algumas dificuldades podem ser confundidas com outros diagnósticos, como a Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA), o autismo ou até uma aparente falta de interesse.

Alguns sinais de alerta incluem:

  • Distração frequente perante ruído de fundo;
  • Atraso no desenvolvimento da linguagem;
  • Dificuldades de aprendizagem sem causa aparente;
  • Dificuldade em seguir instruções;
  • Dificuldades na leitura e na escrita;
  • Troca de sons ou palavras semelhantes;
  • Desorganização frequente;
  • Necessidade de repetir várias vezes a mesma informação.

A presença destes sinais não significa obrigatoriamente que a criança apresente uma Perturbação do Processamento Auditivo Central (PPAC). No entanto, é importante realizar uma avaliação adequada para compreender a origem das dificuldades.

Como é realizado o diagnóstico?

O diagnóstico é realizado por um Audiologista, através de uma bateria específica de testes que permite avaliar as diferentes habilidades auditivas.

Entre os testes que podem ser utilizados encontram-se:

  • Teste Dicótico de Dígitos;
  • Testes de Padrão Temporal;
  • Testes de discriminação auditiva;
  • Testes de compreensão da fala em ambientes com ruído;
  • Outros exames selecionados de acordo com as dificuldades apresentadas.

Através destes testes, é possível identificar quais as habilidades auditivas que se encontram comprometidas.

De forma geral, esta avaliação é realizada em crianças com mais de 7 anos, uma vez que, antes dessa idade, a via auditiva ainda se encontra em desenvolvimento.

O acompanhamento deve ser adaptado a cada pessoa

Dependendo do diagnóstico, podem ser recomendadas diferentes estratégias, tais como:

  • Treino auditivo;
  • Estratégias para melhorar a atenção e a compreensão;
  • Adaptações no ambiente escolar ou profissional;
  • Aconselhamento à família;
  • Acompanhamento multidisciplinar.

Quanto mais cedo for realizado o diagnóstico correto, maior será a probabilidade de melhorar as dificuldades apresentadas e reduzir o impacto na vida escolar, profissional, familiar e social de cada pessoa.

Sofia Martins
Audiologista

Referências bibliográficas

Alanazi, A. A. (2023). Understanding Auditory Processing Disorder: A Narrative Review. Saudi Journal of Medicine & Medical Sciences, 11(4), 275–282. https://doi.org/10.4103/sjmms.sjmms_218_23

Dos Santos, J. C. C., Arruda, M. A., & Masruha, M. R. (2026). Auditory Processing Disorder in childhood: A critical appraisal of diagnostic validity, functional assessment, and interdisciplinary practice. Frontiers in Human Neuroscience, 20, 1715787. https://doi.org/10.3389/fnhum.2026.1715787

Katz, J., Chasin, M., & Ovid Technologies, Inc. (Eds.). (2015). Handbook of Clinical Audiology (7.ª edição). Wolters Kluwer Health.