Muitas vezes, deparamo-nos com uma das queixas mais comuns:
“Eu ouço bem, só não consigo perceber as pessoas.”
Perante esta dificuldade, a primeira abordagem deverá ser sempre verificar a audição.
Ouvir é apenas o primeiro passo
O som é captado pelo pavilhão auricular e conduzido pelo canal auditivo até à membrana timpânica, fazendo-a vibrar.
Essa vibração é transmitida aos três ossículos do ouvido médio, que a amplificam e a conduzem até à cóclea. No interior da cóclea, o movimento das células transforma as vibrações em impulsos elétricos, que são enviados para o cérebro.
Este processo é realizado pelo Sistema Auditivo Periférico.
E o que acontece quando a audição está normal?
É nesta fase que entra o Processamento Auditivo Central (PAC).
O PAC corresponde ao conjunto de habilidades que permite ao cérebro e às restantes estruturas da via auditiva interpretar, organizar e discriminar os sons que captamos.
Por outras palavras, ouvir um som não significa necessariamente compreendê-lo corretamente.
Ouvir não significa compreender
Quando uma avaliação demonstra que a audição está dentro dos parâmetros de normalidade, é importante analisar as principais dificuldades apresentadas pela pessoa.
Entre as queixas mais frequentes encontram-se:
- Dificuldade em compreender a fala em ambientes ruidosos;
- Necessidade frequente de pedir para repetir;
- Troca de palavras com sons semelhantes;
- Dificuldade em localizar a origem dos sons;
- Sensação de cansaço após situações que exigem muita atenção auditiva;
- Tendência para o isolamento social.
Estas dificuldades não afetam apenas uma faixa etária específica. Tanto crianças como adultos podem apresentar alterações relacionadas com o processamento auditivo.
Nos adultos, estas queixas podem tornar-se mais comuns com o envelhecimento, estando frequentemente associadas a uma maior sensação de esforço, cansaço e dificuldade em localizar os sons.
Nas crianças, os sinais podem ser confusos
Em idade escolar, algumas dificuldades podem ser confundidas com outros diagnósticos, como a Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA), o autismo ou até uma aparente falta de interesse.
Alguns sinais de alerta incluem:
- Distração frequente perante ruído de fundo;
- Atraso no desenvolvimento da linguagem;
- Dificuldades de aprendizagem sem causa aparente;
- Dificuldade em seguir instruções;
- Dificuldades na leitura e na escrita;
- Troca de sons ou palavras semelhantes;
- Desorganização frequente;
- Necessidade de repetir várias vezes a mesma informação.
A presença destes sinais não significa obrigatoriamente que a criança apresente uma Perturbação do Processamento Auditivo Central (PPAC). No entanto, é importante realizar uma avaliação adequada para compreender a origem das dificuldades.
Como é realizado o diagnóstico?
O diagnóstico é realizado por um Audiologista, através de uma bateria específica de testes que permite avaliar as diferentes habilidades auditivas.
Entre os testes que podem ser utilizados encontram-se:
- Teste Dicótico de Dígitos;
- Testes de Padrão Temporal;
- Testes de discriminação auditiva;
- Testes de compreensão da fala em ambientes com ruído;
- Outros exames selecionados de acordo com as dificuldades apresentadas.
Através destes testes, é possível identificar quais as habilidades auditivas que se encontram comprometidas.
De forma geral, esta avaliação é realizada em crianças com mais de 7 anos, uma vez que, antes dessa idade, a via auditiva ainda se encontra em desenvolvimento.
O acompanhamento deve ser adaptado a cada pessoa
Dependendo do diagnóstico, podem ser recomendadas diferentes estratégias, tais como:
- Treino auditivo;
- Estratégias para melhorar a atenção e a compreensão;
- Adaptações no ambiente escolar ou profissional;
- Aconselhamento à família;
- Acompanhamento multidisciplinar.
Quanto mais cedo for realizado o diagnóstico correto, maior será a probabilidade de melhorar as dificuldades apresentadas e reduzir o impacto na vida escolar, profissional, familiar e social de cada pessoa.
Sofia Martins
Audiologista
Referências bibliográficas
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